2008-07-18

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Perde-se o pensamento em tardes de verão...
Foca-se um ponto mas não é esse ponto que se vislumbra.
Sem sentido...
Tristeza nostálgica, falta de sentimento reconhecível...
Noites quentes de barulho para abafar os pensamentos.
Dissipam-se faculdades, desaparece o jeito, não se sabe o que dizer, no que pensar, o que exprimir e de que forma.
O verão arranca-nos os pensamentos, perdidos nas ondas de calor.
As ideias fogem.
Recordações vão-se.
Luta-se contra a inacção, mas ela vence sempre.
Resta a languidez de dias arrastados com a cabeça a rebentar.

Nada.

2008-07-14

Ke/C(13)/ta/H(16)/mi/Cl/na/NO

Gritei, não me lembro se o fiz realmente ou se apenas na minha viagem. Outros riam. De mim? A paranóia instaurava-se, eles tornavam-se sombras, maiores que eu, como um cliché de filme e ao mesmo tempo como nada que alguma vez tivesse visto, as suas sombras eram amarelas e estendiam-se sobre o chão como um tecido, as suas sombras tinham sombras, estas escarlate, a voarem descontroladamente, como fogo. Os seus risos faziam com que as chamas subissem, como se seguissem o seu ritmo.
O quarto ardia. Lentamente todas as sombras se transformavam em chamas, subiam pelas paredes, tocavam no tecto.
Os outros queimavam-se, a pele descolava-se da carne como papel, mas eles continuavam lá, a falar.
Agora não riam, talvez por estar mais calmo.
Tinha calor, muito calor, como se com o fogo a minha roupa se colasse à pele, sentia-a a arder, o coração a bater mais rápido, não conseguia respirar porque o fogo era demasiado intenso, sentia o peito a arder, ia morrer, tinha a certeza, ia morrer ali e ninguém ia reparar.
Foi no meu estado mais (in)consciente que te vi, reluzente nos céus.
Julguei-te Deus, que tinha chegado a minha hora, julguei-te a salvação, e de seguida o desespero.
Eras brilhante, apenas luz.
Aproximaste-te de mim, ou era eu que flutuava até ti.
Lembro-me do tom de voz e da frase com distinção:
"A natureza é o teu mar."
Desapareceste. O quarto continuava a ser o mesmo, mas agora haviam estrelas nos ares. Eles já lá não estavam, apenas um, deitado, pensei se estaria morto, se Deus o tinha morto, se tinha morrido queimado.
Com as estrelas haviam planetas pequenos, minúsculos, o quarto tornava-se enorme na sua escuridão, ainda não tinha parado de flutuar desde que comecei a sentir...
Sentia todas as extremidades do meu corpo, tinha a completa percepção do que era, sentia o sangue a correr pelas veias e os ossos a moverem-se conforme aproximava as mãos da cara. Não conseguia distinguir se tinha os olhos fechados ou abertos, via cor, ouvia vozes que não pareciam ser em nenhuma língua que conhecesse...
Estava longe... Tão longe... Como se visse todo o mundo à minha volta e todas as vozes que ouvia viessem de todos os seus pontos.
Voei e viajei, e a memória não me deixa recordar de muito mais, o que vi foi apenas para o Eu do momento.

...

Quando finalmente despertei aos poucos, sentando-me na cama, senti que tinha acordado para o mundo (ir)real.

2008-07-06

Microponto

Preso dentro do que conhece, observa apenas.
Tudo passa, o corpo habitua-se, mas a mente está longe.
A distância é cada vez maior, e não é possível ter controlo da realidade.
Quando a mente observa o que se passa no que parece ser o presente, é já passado no plano geral, qualquer reacção torna-se impossível, reage a algo que já aconteceu.
Não existe controlo sobre o que se passa em redor.
O mundo passa, o tempo passa.
Sempre atrasado, o corpo continua, a mente não reconhece, a vida acontece e só é perceptível muito tempo depois.
O presente está enevoado porque é ainda o passado.
O tempo passa e não é possível reconhecê-lo a tempo.
A languidez de outrora cessa, tudo corre em marcha rápida, apenas a mente fica.
Não existe concentração necessária para compreender o que se passa.
Como se alguém conduzisse a sua vida, não tendo que pensar.
Como se parasse de evoluir.
Preso no tempo, mas com ele a decorrer...
Como se um dia fosse acordar e perceber que nada está como queria, que afinal todas as decisões foram as erradas, que já não há maneira de voltar atrás.
Um deslize do tempo, uma paragem que não é perceptível a mais ninguém senão a quem a sente.
Um grande túnel de vento onde o tempo normal decorre, uma viagem com vários outros tempos que andam mais rápido, tão rápido quanto o túnel, sempre à mesma velocidade, os outros tempos a correrem com ele, e o tempo que observa a afastar-se, a perder-se, a andar devagar...
Duas partes a esticarem-se como um elástico, uma a ir rápido para a frente, a outra a ficar para trás sem conseguir avançar tão depressa.
A conclusão ainda indefinida, as partes partem-se? Voltam-se a juntar com a força?
O peso do mundo em cima da parte que ficou para trás em segundos? O retorno à normalidade com um baque, iluminação concreta da mente?
As cores mudam como água a correr...