As the Starman looks at us from above,
we remember what we once were,
and as the crystals pour we look at the mirror,
and realize that we can never be anything else.
So this film is becoming a bore...
Is there really life on Mars?
(Inspired by David Bowie)
2008-01-25
Major Tom
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2008-01-24
Ékleipsis
Ainda me lembro das tuas últimas palavras antes de te atirares às feras.
O tempo era de guerra e os exércitos marchavam em intermináveis filas, prontos a morrer pelo seu planeta.
Disseste-me para não me esquecer daquele momento, mas eu já sabia que ele ia ficar gravado na minha memória para sempre... Relembraste-me o quão importante era que a vida continuasse, e que era por isso que te estavas a juntar àquela espécie de suicídio em massa.
"Uns poucos morrem para que o resto do mundo possa sobreviver" foram as tuas palavras... Dificilmente poéticas, contrariando o teu hábito de proferires citações de grandes pensadores e filósofos, porém naquele momento qualquer frase dita era sinónimo de bravura face ao silêncio atemorizado de todo o exército, inseguros acerca do que estavam prestes a fazer...
Reparei brevemente na paisagem pintada por trás de ti... As colinas que se estendiam para lá do horizonte, destroços e terra agora cobertos por um mar de soldados como formigas a avançar contra um inimigo largamente superior; o grande grupo que se despedia das famílias, benevolência dos superiores que já há muito deviam ter avançado com os restantes grupos, um pouco de humanidade num momento em que era obrigatório não sentir...
Olhámo-nos nos olhos sem dizer uma palavra... As palavras eram inúteis num momento como aquele, eu e tu sabíamos que não nos íamos voltar a ver vivos.
Procurei decorar a tua expressão naquele dia, e ainda hoje me lembro como se ainda olhasse para ti.
Os teus olhos outrora mortiços pareciam decididos, francamente decididos, como se soubesses perfeitamente o que ia acontecer, e não tivesses qualquer medo... É estranho como alguém que sempre procurou segurança em outras pessoas pudesse parecer tão decidido e seguro de si...
Um grande clarão de luz verde ergueu-se nos céus ao longe, era o sinal para avançar... De costas, viste-o no reflexo dos meus olhos, e olhaste para trás brevemente. Voltaste a olhar para mim, desta vez com aqueles olhos que eram sinónimo de saudade... Costumavas ter esse olhar antes de te ires embora ao fim do dia, mesmo sabendo que nos íamos voltar a ver. Mas desta vez não ia ser assim...
Abraçaste-me e disseste um simples adeus. Naquele momento estava já habituada à falta de poesia na tua voz. O momento era de ânsia...
Foste chamado à formação, e carregaste no botão da minha cápsula. O vidro fechou-se sobre mim, e a tua mão pousou sobre ele, um momento digno de cinema. Correste para o batalhão, o general dizia a todos as suas últimas palavras, mas não as consegui ouvir porque a pequena cápsula preparava-se para descolar, com os seus motores a começarem a trabalhar e a voz de bordo a confirmar que tudo estava no seu lugar... Outras cápsulas alinhadas à minha volta, repletas de pessoas que se despediam, começavam também a trabalhar...
Num uníssono estrondo, levantámos voo, e pudemos ainda ver-vos a correr para o centro da batalha.
Quanto mais nos afastávamos da atmosfera, mais podíamos ver a magnitude de todo aquele momento. E lá estavam eles, o inimigo, agora cercado por várias pequenas pintas negras, cada uma delas um soldado que dava a vida pelo futuro de quem estava agora a deixar a Terra que por momentos ia deixar de ser nossa...
Antes de chegar ao espaço pudemos ver o começo de tudo, sinal de que escapámos mesmo a tempo... As explosões de electricidade azuis, umas mais longe e outras cada vez mais perto, começavam a surgir entre os grandes grupos... O som destas ressoou como um grande grito que nunca hei de esquecer, e senti um calafrio pela espinha.
A chegar ao espaço, a cápsula começava a abrandar e a Terra era agora mais azul que sempre. Um azul instável, uma grande descarga de energia que acabava com toda a vida na superfície... Soube ali que te perdi, um pensamento partilhado com toda a gente a gente nas cápsulas, inseguras de como era suposto tudo começar de novo...
A luz azul começava-se a dissipar aos poucos, e minha atenção foi desviada para o sol... Branco, brilhante, tão brilhante que era filtrado pelo vidro da cápsula. Sinal de recomeço, como uma luz branca que antecipa o nascimento...
O nosso renascimento começou ali, e desde aí não há dia em que não recorde essa era que parece agora tão distante... Mas da qual me lembro como se tivesse acabado de acontecer.
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2008-01-21
Nostalgia
Agora os monstros foram fechados no armário.
Dei-Te a chave, e tal acção não me preocupa...
...Pois não preciso da sua companhia para Te ter por perto.
Mostraste-me planos que julguei serem mitos e exageros de tempos passados.
Fizeste-me ver que eles estão lá, e estiveste do meu lado durante toda a viagem.
Agora a nostalgia já pode merecer esse nome.
A cidade, as luzes e as ruas desconhecidas à noite, a sensação de felicidade...
Tudo existiu afinal.
Faltou a noção de solidão... Nunca foi bem-vinda.
Viagens, saber que estou longe...
...E no entanto sentir como nunca que estou protegido. Sentir como nunca que estou em Casa.
Descobri por fim que existem insónias por preocupação a mais.
Sei agora que estando seguro elas desaparecem.
E lamento apenas não poder lutar contra o cansaço para Te ter por perto por mais tempo.
Mas sei também que o tempo, apesar de finito, ainda não acabou.
E as viagens, as cidades por descobrir, a protecção, a Casa, as sensações, continuam lá...
Continuam contigo, e agora, finalmente, sei onde estás.
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2008-01-13
Fénix
Depois de tanta destruição só pode vir a paz.
Depois de caminhar por ruínas só resta começar do zero e construir.
É só encontrar os materiais certos, ter força e alguma ajuda.
Dois pares de braços funcionam melhor que um, mesmo que pareçam um com a força de dois.
Resta voltar a erguer a cidade dos escombros.
Apagar as chamas e reconstruir.
E no fim, ter uma Casa onde só existe quem é preciso.
Onde se reaprende a viver.
Como uma fénix que nasce do fogo.
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2008-01-11
Hello...
...Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me.
Is there anyone Home?
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1112008
Sempre me escondi atrás de metáforas e analogias, pois ouvi bem demais quem estava à minha volta.
Sempre impedi o sentimento de se soltar porque sempre fizeram questão de me lembrar que é vergonhoso falar assim de nós.
Sempre fingi que estava a falar de outra coisa qualquer pois sempre me rebaixaram por tentar dizer o que se passa.
Sempre me insultaram porque era estranho.
Sempre me bateram e roubaram bocados porque tinha traços diferentes.
E sempre fingi ser outra pessoa para poder olhar para mim e rir como eles o faziam.
Este mundo só existe para as máquinas.
As máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
Todos sabem que não nos devemos referir directamente.
Todos sabem que é incorrecto admitir o que somos.
E por isso todos sabem que nos devemos esconder atrás de outro nome, outra cara, outra personalidade.
Eu nunca o fiz abertamente por achar que assim estava a ser inserido.
Nunca o fiz abertamente porque pensei que só os rejeitados o faziam.
E descobri finalmente que todos o escondem, mas ninguém é o que mostra.
Este mundo só existe para as máquinas.
As máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
Todos eles me fizeram escolher uma sala só para mim.
A recompensa por finalmente me calar e fingir que sou outro.
Para ser eu só comigo lá dentro e sair novamente o Eu que todos compreendem.
Mas farto-me, e fartei-me.
E deixei a sala pegar fogo.
As paredes sem forma a derreterem como plástico.
Este mundo só existe para as máquinas.
As máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
Agora sei que me bateram para eu ser o que sou hoje.
Agora sei que me insultaram tanto quantas horas há num dia porque havia a hipótese de me tornar uma ameaça.
Podia-me ter tornado o que todos temeram e todos tentam não ser.
Fingiram querer o meu bem, fingiram querer fazer o que estava certo.
E disseram-mo sempre para que eu acreditasse em tudo o que eles diziam.
Mas agora, só agora, eu vou falar de mim e eles vão ouvir.
Este mundo só existe para as máquinas.
As máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
É vergonhoso para vocês saberem o que eu digo.
É vergonhoso saberem que não me escondo atrás de nada.
É vergonhoso e tentam abater-me em desespero.
Tentam tapar os olhos para deixarem de ver o maquinalmente incorrecto.
Eu sou eu agora, e nenhum de vocês me pode tirar isso neste momento.
Este mundo só existe para as máquinas.
As máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
Eles não o vêem e eu também não o vi.
Mas as suas salas estão rodeadas por paredes.
Os chamados espaços infinitos que eles vêem estão apenas lá pela ausência de cor.
Eles nunca deram um passo em frente.
Como podem saber que não existem paredes?
Como podem saber que estão sempre fechados, se nunca saíram?
Este mundo só existe para as máquinas.
As máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
Estou farto de fingir e farto do número que reservaram para mim.
Estou farto de só falar quando alguém pergunta algo.
Estou farto de "dizer apenas as coisas interessantes".
Estou farto de ser aquele que se limita a completar as frases, de ser o perfeito objecto para comandar.
Vou cortar as cordas, mas ao contrário do que possam pensar não vou fugir.
Vou fazer-lhes ver em mim os seus medos.
Vou fazê-los vomitar mentiras e blasfemar contra A Máquina.
Este mundo só existe para as máquinas.
As máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
Tragam-me os seus circuitos em bandejas.
Os seus geradores em pequenos cofres.
Façam-nos respirar por si pela primeira vez.
Cada um no seu caminho.
Cada um em plena anomia.
Cada um em pleno niilismo.
Este mundo só existe para as máquinas.
As máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
Façam-nos perceber o que isso significa.
Batam-lhes, observem-nos, roubem-lhes bocados.
Ridicularizem-nos quando eles estiverem à beira de um esgotamento.
Persigam-nos até casa.
Inundem-lhes as salas.
Tirem-lhes tudo o que alguma vez foi deles.
Pois este mundo só existe para as máquinas.
E as máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
E as máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
E as máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
E as máquinas só existem para nos fazerem ver que está tudo bem.
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2008-01-03
Egoísta
A caixa das mensagens está cada vez mais cheia, a cada dia que passa acumula mais...
Ele apaga-as sem ler, não quer saber de ninguém.
É egoísmo puro.
Querer sentir-se só porque não suporta a companhia de ninguém.
Sentir-se sozinho porque não tem ninguém ao lado.
Foge para os livros, foge para os filmes.
Outras vidas distantes, outras preocupações que não consigo.
Sacrificou o sentimento pelo trabalho, cada vez é mais óbvio que não se pode ter os dois em perfeito equilíbrio.
Trabalha, e também assim foge concentrando-se no seu objectivo e esquecendo até quem é.
Outrora um momento para relaxar e reflectir calmamente sobre tudo o que o seu próprio filme lhe mostra.
Agora uma altura para fugir ao seu e entrar no filme maquinal...
Ainda hoje alguém demasiado próximo lhe passou sábias palavras entre soluços que lhe trespassaram o coração pela sua simplicidade e por servirem de confirmação de que até alguém com bastante experiência de vida sofre ainda de questões existenciais...
"De que serve ter tudo se no fim nunca chegamos a ser felizes?"
E realmente de que serve, afinal?
Fugimos para os livros e os filmes só para não termos de encarar as nossas próprias histórias.
Fala-se dos problemas na terceira pessoa para enganar a mente, sabendo-se superficialmente de que falamos de nós próprios e de quem nos rodeia.
E a cada dia que passa o sentimento agrava-se...
Há quem o queira por perto, quem precise do seu calor e ele rejeita-os... Afasta-os e sorri, diz que está tudo bem, com a voz cada vez mais baixa, os movimentos cada vez mais lentos.
Os sinais de que está a viver só para si.
Não precisa de falar alto, ele ouve o que quer dizer.
Não precisa de se mover rapidamente, ele sabe bem o que vai fazer a seguir.
Diz que está bem e foge, deixando-se adormecer quando não aguenta mais, para sonhar com outros sítios que não este...
Desaponta quem precisa dele, afasta-se de tudo o que lhe podia trazer algum calor.
As guitarras ecoam na sua mente e as vozes cantam letras de despedida.
Fecha-se ao mundo, embrulha-se num cobertor e recolhe-se no seu rectângulo perfeito.
Ele está bem... Está apenas a precisar de ler.
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