2008-01-24

Ékleipsis

Ainda me lembro das tuas últimas palavras antes de te atirares às feras.
O tempo era de guerra e os exércitos marchavam em intermináveis filas, prontos a morrer pelo seu planeta.
Disseste-me para não me esquecer daquele momento, mas eu já sabia que ele ia ficar gravado na minha memória para sempre... Relembraste-me o quão importante era que a vida continuasse, e que era por isso que te estavas a juntar àquela espécie de suicídio em massa.
"Uns poucos morrem para que o resto do mundo possa sobreviver" foram as tu
as palavras... Dificilmente poéticas, contrariando o teu hábito de proferires citações de grandes pensadores e filósofos, porém naquele momento qualquer frase dita era sinónimo de bravura face ao silêncio atemorizado de todo o exército, inseguros acerca do que estavam prestes a fazer...
Reparei brevemente na paisagem pintada por trás de ti... As colinas que se estendiam para lá do horizonte, destroços e terra agora cobertos por um mar de soldados como formigas a avançar contra um inimigo largamente superior; o grande grupo que se despedia das famílias, benevolência dos superiores que já há muito deviam ter avançado com os restantes grupos, um pouco de humanidade num momento em que era obrigatório não sentir...
Olhámo-nos nos olhos sem dizer uma palavra... As palavras eram inúteis num momento como aquele, eu e tu sabíamos que não nos íamos voltar a ver vivos.
Procurei decorar a tua expressão naquele dia, e ainda hoje me lembro como se ainda olhasse para ti.
Os teus olhos outrora mortiços pareciam decididos, francam
ente decididos, como se soubesses perfeitamente o que ia acontecer, e não tivesses qualquer medo... É estranho como alguém que sempre procurou segurança em outras pessoas pudesse parecer tão decidido e seguro de si...

Um grande clarão de luz verde ergueu-se nos céus ao longe, era o sinal para avançar... De costas, viste-o no reflexo dos meus olhos, e olhaste para trás brevemente. Voltaste a olhar para mim, desta vez com aqueles olhos que eram sinónimo de saudade... Costumavas ter esse olhar antes de te ires embora ao fim do dia, mesmo sabendo que nos íamos voltar a ver. Mas desta vez não ia ser assim...
Abraçaste-me e disseste um simples adeus. Naquele momento estava já habituada à falta de poesia na tua voz. O momento era de ânsia...
Foste chamado à formação, e carregaste no botão da min
ha cápsula. O vidro fechou-se sobre mim, e a tua mão pousou sobre ele, um momento digno de cinema. Correste para o batalhão, o general dizia a todos as suas últimas palavras, mas não as consegui ouvir porque a pequena cápsula preparava-se para descolar, com os seus motores a começarem a trabalhar e a voz de bordo a confirmar que tudo estava no seu lugar... Outras cápsulas alinhadas à minha volta, repletas de pessoas que se despediam, começavam também a trabalhar...
Num uníssono estrondo, levantámos voo, e pudemos ainda ver-vos a correr para o centro da batalha.
Quanto mais nos afastávamos da atmosfera, mais podíamos ver a magnitude de todo aquele momento. E lá estavam eles, o inimigo, agora cercado por várias pequenas pintas negras, cada u
ma delas um soldado que dava a vida pelo futuro de quem estava agora a deixar a Terra que por momentos ia deixar de ser nossa...
Antes de chegar ao espaço pudemos ver o começo de tudo, sinal de que escapámos mesmo a tempo... As explosões de electricidade azuis, umas mais longe e outras cada vez mais perto, começavam a surgir entre os grandes grupos... O som destas ressoou como um grande grito que nunca hei de esquecer, e senti um calafrio pela espinha.
A chegar ao espaço, a cápsula começava a abrandar e a T
erra era agora mais azul que sempre. Um azul instável, uma grande descarga de energia que acabava com toda a vida na superfície... Soube ali que te perdi, um pensamento partilhado com toda a gente a gente nas cápsulas, inseguras de como era suposto tudo começar de novo...
A luz azul começava-se a dissipar aos poucos, e minha atenção foi desviada para o sol... Branco, brilhante, tão brilhante que era filtrado pelo vidro da cápsula. Sinal de recomeço, como uma luz branca que antecipa o nascimento...
O nosso renascimento começou ali, e desde aí não há dia em que não recorde essa era que parece agora tão distante... Mas da qual me lembro como se tivesse acabado de acontecer.

2 vulto(s):

Someone disse...

Eu gosti deste. Gostei que não sei que dizer sinceramente. É um dos meus defeitos...
Achei a imagem bonita também com o texto :]

ContorNUS disse...

(em 9 letras)

E X C E L E N T E

tudo o resto foi dito na perfeita exactidão